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Borboletas na barriga

2016-09-27

As borboletas

 

Brancas

Azuis

Amarelas

E pretas

Brincam

Na luz

As belas

Borboletas

 

Borboletas brancas

São alegres e francas

 

Borboletas azuis

Gostam muito de luz

 

As amarelinhas

São tão bonitinhas

 

E as pretas, então

Oh, que escuridão

 

Poema de Vinicius de Morais,

cantado por Adriana Partimpim

(https://www.youtube.com/watch?v=1-EfSGTdep8)


 

Prelúdio. 1 de Outubro, Dia Mundial das Borboletas na Barriga! Ou, por outros tons, Dia Mundial da Música. Sim, sim, plim, plim, que a música tem esse dom, tom, tom, de bater de asa, leve, leve, dentro de meninas e meninos, hinos, hinos!

Allegro. “Quando ouço o som de um violino, sinto borboletas na barriga.” Quem o diz é uma menina do bairro pobre de Cateura (a maior lixeira do Paraguai), que – num violino feito a partir de lixo ressuscitado – toca Vivaldi e acorda em nós a Primavera. Vale a pena ouvi-la (www.youtube.com/watch?v=UJrSUHK9Luw) no vídeo sobre a Orquestra de Instrumentos Reciclados: sobre pessoas que transformam lixo em instrumentos musicais; sobre o poder da música como elemento de dignificação humana e de transformação social; sobre como se resgata, da mais funda pobreza, crianças em risco e sons de beleza. A música é como as borboletas: há nela o dom da metamorfose!

Tocata e(m) Fuga. Em Portugal, porém, o ensino da música é, muitas vezes, relegado para o plano do floreado acessório, mais ainda quando se põem em fuga os apoios estatais ao Ensino Artístico, tornando-o intocável para a maioria. Ora, sendo um factor determinante para o desenvolvimento sadio de crianças e jovens durante o período escolar, a música devia estar verdadeiramente integrada, de forma transversal até, no percurso curricular de todo o ensino pré-escolar e básico. E aprender música não é, como acontece por aí em algumas escolas primárias, cantarolar as canções do Panda nas escassas horas previstas para as expressões artísticas! A música é uma linguagem infinitamente mais universal do que qualquer língua franca, mas tem sido demasiado engavetada (e até engravatada…), em vez de estar imbuída, como música de fundo contínua, no currículo das crianças e jovens portugueses. A negligente atenção que muitas escolas lhe dedicam hoje é uma surdez com sérias consequências para o futuro.

Crescendo. Experiências conduzidas por investigadores e neurocientistas têm provado que aprender música ajuda as crianças no seu desenvolvimento cognitivo, proporcionando melhores desempenhos tanto na aprendizagem da matemática como das línguas. Além disso, as atividades musicais criativas não só impulsionam a capacidade musical propriamente dita, como influenciam, de maneira marcante, aspetos como competência social, motivação para aprender e trabalhar, inteligência, capacidade criativa, equilíbrio emocional e habilidade para resolver conflitos. Um estudo do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Hospital Infantil de Boston veio constatar que as crianças que recebem aulas de música regularmente amplificam as suas capacidades cerebrais para o resto da vida, alcançam resultados escolares acima da média, um desempenho superior em desporto e, mais tarde, em actividades profissionais. A pesquisa mostrou que os alunos que recebem aulas particulares de música revelam maior atividade cerebral nas áreas associadas às funções executivas — ou seja, os processos cognitivos que permitem processar e reter informações, resolver problemas e regular comportamentos. O neurocientista Oliver Sacks (autor de Musicofilia) afirma que a música, literalmente, molda os nossos cérebros. Aprender música estimula o cérebro num accelerando de espiral progressiva...

Molto vivace. Como a espiral virtuosa de um Bolero de Ravel, precisamente: www.youtube.com/watch?v=8TPsar2kGLs. Aqui está um inspirado filme de animação (Sinfonia, de Simon Brethé) que é um bom ponto de partitura para, na escola, começar a explorar alguns conceitos musicais com as crianças. O desenho animado, eivado de notas humorísticas, funciona como um concerto didáctico, porque os diversos instrumentos que integram a orquestra estão individualizados, sendo possível associar facilmente o som ao respectivo instrumento em cada movimento da música! É o que acontece também no clássico Pedro e o Lobo, de Prokofiev, uma história infantil contada através da música que bem podia fazer parte do cânone de obras de leitura obrigatória do 1º ciclo. Como, aliás, o Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns, que tão bem se presta ao prestissimo e lento andamento dos corpos dos miúdos numa aula de expressão motora e fantasia… em sol maior.

Pianissimo. A música habita o silêncio. O dos livros também, de onde se soltam, esvoaçantes, melodias e borboletas. Recorrer às histórias pode ser uma estratégia para ir musicalizando o currículo, um movimento de abertura para outros voos musicais. Proponho alguns arranjos a quatro mãos (as do educador e as do aprendiz) com estes instrumentos de leitura: O Piano de Cauda (Edições Eterogémeas); Sam e o Som (Caminho); A Aula de Tuba (Gatafunho); A história secreta de Pedro e o Lobo de Sergei Prokofiev (Assírio e Alvim). A editora Kalandraka tem duas colecções (Óperas e Livro-CD) vocacionadas para o público infantil, que combinam, como numa sinfonia, a literatura, as artes visuais e a música.

Sinfonia. O pedagogo Daniel Pennac, no seu livro Mágoas da Escola, tocado pela harmonia com que uma professora conduzia a sua turma de jovens imigrantes dos subúrbios, evoca a relação desejável entre uma sala de aula e uma orquestra: “Cada aluno toca o seu instrumento, não vale a pena contrariá-lo. A delicadeza está em conhecer bem os músicos e encontrar a sua harmonia. Uma boa turma não é um regimento que acerta o passo e a marcha, é uma orquestra que estuda a mesma sinfonia. E se herdarmos o pequeno triângulo que só faz ting-ting, ou o berimbau que só faz boing-boing, o que interessa é que o façam no momento certo, o melhor possível, que se tornem um excelente triângulo, um irrepreensível berimbau, e que se sintam orgulhosos da qualidade que o seu contributo confere ao conjunto. Como o gosto da harmonia conduz ao progresso de todos, o pequeno triângulo acabará, também ele por aprender a música, talvez não tão brilhantemente como o primeiro violino, mas tocará a mesma melodia.”

E, às vezes, as borboletas na barriga são motivo e melodia para o mais belo Magnificat!

 

Joana Portela, mãe

(A autora deste texto não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico)

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