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Pensar com os pés, respirar com os braços

2016-06-22

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

 

Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”


Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz e a boca”. Não conheço melhor lema do que estes versos de Alberto Caeiro para traduzir o que, a meu ver, deveria ser a educação das crianças em todas as dimensões. Desde as actividades de iniciação científica, à exploração da imaginação e da criatividade pessoal por meio das artes, passando pelo desenvolvimento da consciência corporal, todas estas aprendizagens, fundamentais durante a infância, implicam pensar com o corpo. E pensar com o corpo, meditar com os sentidos, também se aprende.

“Sinto todo o meu corpo deitado na realidade”... Alonguemos membros e mentes como se alongam no chão as longas sombras das tardes de Verão. No dia mais loonnngo do ano, celebra-se o Dia Internacional do Yoga, uma prática ancestral hindu que visa estabelecer o equilíbrio entre a mente e o corpo através do desenvolvimento da consciência corporal. Solar e luminosa, a data de 21 de Junho foi adoptada pela ONU com o intuito de promover, em todo o mundo, o reconhecimento de que o yoga proporciona uma abordagem holística da saúde e bem-estar, cujos benefícios, físicos e emocionais, se traduzem num melhor estilo de vida individual e se reflectem na promoção da saúde e do equilíbrio pessoal.

E fecho os olhos quentes”... Confesso que não sou (ainda…) praticante de yoga e que já trazia em mente outro tema para o texto deste mês, mas um episódio recente fez-me flexibilizar o intento e inflectir a intenção. Ouvi contar, por acaso, que na turma (5-6 anos) da minha filha há um menino que, de vez em quando, se afasta do grupo e vai, por sua iniciativa, para um canto da sala ou do recreio fazer yoga, até se acalmar. Fica uns 5 a 10 minutos sentado na posição de lótus, olhos fechados, a meditar. Depois, regressa ao grupo e à actividade da turma, em paz consigo mesmo e com os outros. Fiquei espantada e quase incrédula com esta atitude espontânea do miúdo, até porque, na pequena cidade onde vivo – Alentejo adentro –, não há sessões nem professores de yoga com quem ele pudesse ter aprendido.  Mas a minha filha confirmou este hábito do colega com tanta naturalidade que percebi que tal comportamento do miúdo era encarado por todos sem qualquer estranheza. Há dias perguntei ao Rodrigo se aprendera a fazer yoga com a mãe, mas ele respondeu, genuíno: “Não, foi com o Ninja [Sensei Wu, dos desenhos animados]. Quando vou meditar, às vezes também levo o meu cinto de ninja”. Mais tarde, a mãe contou-me que ele adquirira sozinho este hábito, como estratégia para se reequilibrar e lidar com situações de confusão, exterior ou interior. Achei notável e inspiradora esta forma espontânea de autocontrolo num menino que acaba de fazer 6 anos. Aqui está uma estratégia que podia ser ensinada a muitas outras crianças, desde a primeira infância.

“E os meus pensamentos são todos sensações”… Este episódio tem-me feito pensar no imenso potencial que o yoga pode ter na modelação de comportamentos e no autocontrolo emocional das crianças. Depois de alguma pesquisa sobre os benefícios desta prática na infância, chego à conclusão de que seria muito pertinente e altamente benéfico introduzir o yoga nas orientações curriculares do pré-escolar e nas aulas do 1º ciclo. Aliás, cerca de 800 crianças dos jardins de infância e de escolas do 1º ciclo do Porto já têm aulas de yoga em horário lectivo (cf. “Como o yoga acalma as crianças”, TSF). Oxalá este projecto-piloto se alongue e se estenda a muitas outras escolas do país. Entretanto, na Marinha Grande, um outro projecto põe os alunos do 1º ciclo a começar as aulas em silêncio e a respirar (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2016-06-07-Alunos-da-Marinha-Grande-comecam-aulas-em-silencio), com resultados notáveis. Pergunto-me se políticas públicas concretas e eficazes para prevenir o bullying nas escolas ou para combater a epidemia da hiperactividade não passarão por ter sessões de yoga/respiração em todas as escolas. Aprender a pensar com os pés, senti-los da ponta dos dedos ao ínfimo dos calcanhares, talvez prevenisse muitos pontapés.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”, concordaria a mãe jardineira do livro O meu pai é um biscoito – Ioga para pais e filhos (Livros Horizonte). Com a ajuda de histórias infantis e algumas orientações, é sempre possível praticar yoga em casa, e até na escola, com os miúdos. Para iniciar os mais pequenos nesta prática, em família ou no jardim-de-infância, recomendo O meu pai é um biscoito, que, no decorrer da história, oferece às crianças, de uma forma descontraída e divertida, exercícios simples para uma primeira abordagem ao yoga. O yoga ensina os mais novos a sentirem-se bem dentro dos seus corpos e ajuda-os a fazerem escolhas com os seus corações. A minha filha entusiasmou-se com o livro e pôs a turma a experimentar as posturas da árvore, do peixe e do arado. “E sabes, mãe? o António conseguiu chegar com as pernas lá mesmo, mesmo atrás!”

Quando num dia de calor / Me sinto triste de gozá-lo tanto… aprender a respirar como uma árvore ou como uma onda do mar é uma estratégia que vai ajudar. O livro Respira (Pequena Fragmenta) é um tranquilizante natural para os dias que correm (www.youtube.com/watch?v=kwKXfodn8mQ). Concebido para trabalhar com as crianças a respiração e o relaxamento, com exercícios simples inspirados no yoga, no Tai Chi e na cinesiologia, o livro apresenta ainda um guia de leitura muito útil para pais e educadores: “Respira é um diálogo entre um menino e a sua mãe na hora de dormir. […] é uma compilação de exercícios ilustrados que podem ajudar os mais pequenos a tomar consciência da sua respiração. […] Recuperar uma respiração plena é um passo muito importante para voltar a ligar-se ao corpo. Se as crianças aprenderem isso desde pequenas, estaremos a dar-lhes recursos para que possam viver com mais profundidade a partir do acto mais simples e necessário que todos fazemos: respirar. […] No âmbito educativo fala-se, desde há algum tempo, da necessidade de trabalhar a interioridade com os alunos, diante da dispersão do mundo de hoje. Não se trata apenas de experimentar técnicas, senão de aprender a utilizá-las para olhar para dentro, reflectir, fazer silêncio […] viver mais abertos a si mesmos, aos outros, ao mundo e à transcendência.” Para quem quiser conhecer a génese do livro, vale a pena ler esta entrevista: observador.pt/2015/12/10/livro-editora-vai-pai-filho-respirar/ e ficar a saber como os três filhos da autora inspiraram o livro quando lhe contaram: “Hoje respirámos uma árvore.”

E me deito ao comprido na erva…” Alberto Caeiro não sabia nada de yoga, nem consta que tivesse biblioteca, mas soube, sem o saber, traduzir em palavras a sua essência – escreveu um poema que bem podia orientar o momento do relaxamento numa sessão de yoga para crianças: … e agora imaginem-se em silêncio, deitados ao comprido na erva; imaginem-se um guardador de rebanhos – sou um guardador de rebanhos […] E fecho os olhos quentes, / Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / Sei a verdade e sou feliz…

                                                                                                                          Joana Portela, mãe

A autora deste texto não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.

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