
2016-05-15 Que bom ser pequenino Ter pai ter mãe ter avós Ter esperança no destino E ter quem goste de nós Se esta rua fosse minha, OqueStrada
“E ter quem goste de NÓÓÓS…”. Os meus filhos gostam de cantar esta música quando vamos de viagem visitar os avós. Transborda destes versos uma candura tão grata, tão segura, que é quase um hino pueril ao dom da família. Parece‑me, por isso, um bom ponto de partida para esta reflexão a propósito do Dia Internacional da Família, que se celebra a 15 de Maio. Porque é entre quem gosta de nós que nos educamos para os afectos. E é na família que aprendemos a perceber o mundo e a situarmo‑nos nele.
Cada criança vai construindo dentro de si imagens e ideias de família que conjugam crenças, valores, símbolos e imaginação, e tudo isto influencia a sua forma de ver, perceber e sentir a realidade. Episódios recentes nas brincadeiras da minha filha mais nova têm‑me feito pensar como o (auto)conceito de família modela de forma tão determinante a mundividência infantil. Agora que ela começou a garatujar a figura humana, um dia explicou‑me assim o seu desenho: “Esta sou eu na barriga da mamã e este é o mano na barriga do papá.” Disfarcei um sorriso perante a confusão anatómica, mas percebi o quanto isso traduzia a sua certeza afectiva de uma paternidade “umbilical” e de uma intemporal cumplicidade fraterna.
No imaginário dos meus filhos, embora em graus diferentes, quase toda a realidade se organiza em famílias, muito para lá do contexto humano. Se fazem bolos de areia na praia, lá estão o bolo‑pai, o bolo‑mãe e os bolos‑filhos. Quando brincam aos comboios, com os animais da quinta ou com o barco dos piratas, o brinquedo‑família alarga‑se com primos, tios e avós (sim, os piratas também têm avós‑corsários e adoram fazer festas de aniversários!). Penso que se passará o mesmo em muitas crianças destas idades: as suas imagens interiores de família retratam a vida que lhes é exterior. A família é, afinal, uma resposta estética e ética para as coisas do mundo.
Por isso julgo tão pertinente, nestes tempos de quotidianos acelerados e de relações tantas vezes virtuais (até no contexto intrafamiliar), reflectirmos sobre as percepções de família que as nossas crianças vão construindo - à imagem da(s) sua(s) - e procurarmos formas de reforçar e alargar os elos afectivos, nomeadamente nas relações familiares intergeracionais, mais próximas ou mais distantes. Para nos reconhecermos como família, não bastam os genes herdados e o sangue que nos flui nas veias. É também fundamental a seiva da história partilhada, essa outra forma de vida que circula entre os ramos da árvore da família.
Para isso, as crianças precisam de verter a sua história familiar em memórias de futuro. Por duas razões: porque o afecto entre gerações e graus de parentesco se alimenta da cumplicidade dos momentos (con)vividos e evocados, das histórias comuns recordadas entre parente(se)s. E ainda porque, na sociedade tão virtualizada em que vivemos, as gerações mais novas correm o risco de perder as recordações palpáveis da sua história pessoal e familiar (as cartas foram substituídas por efémeros e‑mails e SMS que não sobreviverão à posteridade; os álbuns de família deram lugar a fotos virtualmente armazenadas que podem esfumar‑se com um bug informático; os diários dos adolescentes foram substituídos pelo ecrã do Facebook). A desmaterialização do nosso quotidiano é tal, que os nossos filhos e netos, um dia mais tarde, poderão ter dificuldade em reconstituir e documentar as suas memórias familiares.
Pensando nessa identidade familiar a construir pelos nossos miúdos e na cumplicidade intergeracional, sugiro que retomemos - metafórica e materialmente - o baú das recordações de família, mas sobretudo as oportunidades colectivas para o irmos enchendo e vasculhando. Talvez seja boa ideia deixar aqui algumas pistas simples para explorar e desenvolver em família (alargada):
Para ouvir: A Casa Sincronizada (Ed. Caminho): Uma casa em que toda a família está sincronizada. Têm confiança na vida, nas pessoas e no mundo. E essa confiança é inabalável, mesmo quando tudo muda.
Para ver: http://www.youtube.com/watch?v=bUbJDqkRyu4&feature=share
Para fazer: a árvore genealógica da família, com fotografias e registos em papel. Há um livro bonito e didáctico - A Árvore da Minha Família (Difel) para os miúdos investigarem junto dos mais velhos e documentarem a história da família até aos trisavós. Óptimo para depois guardar no baú das recordações.
Para ler e contar: A Manta (Planeta Tangerina): “Quando a minha avó morreu, todas as minhas tias queriam a manta, mais valiosa que tudo o resto. Amuaram durante uns dias, mas depois lá se entenderam, porque sempre foram amigas. Desde então ficou combinado que a manta fica um mês em casa de cada uma. Nos meses em que cá está, vem cobrir a minha cama, e é como se voltasse a estar com a minha avó e com todas as suas histórias.”
Para criar: uma manta com retalhos provenientes de cada membro da família, registando a quem pertenceu o tecido e uma memória que lhe esteja associada. Precioso para deixar de herança aos netos ou sobrinhos.
Talvez sugestões como estas possam servir de pretexto para resgatar, dos nossos baús, algumas memórias e heranças (i)materiais a transmitir aos mais novos, reforçando elos de pertença familiar e afecto. Assim, talvez aqueles versos iniciais – Que bom ser pequenino… – possam ser um ponto de partida para inventar, noutras vozes, este porto de chegada:
Que bom ser velhinho
Ser pai ser mãe ser avós
Ter esperança no seu ninho
E ter quem goste de nós
Joana Portela, mãe
(texto escrito em 2013)
A autora deste texto não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.