
2016-04-01 Abril é metáfora de liberdade! Que fértil coincidência que Abril seja, também, o mês dos livros, essas asas de papel que nos fazem livres para sonhar. O mês abre as suas páginas festejando, primaveril, o Dia Internacional do Livro Infantil, no dia 2. Algumas folhas depois, que entretanto despontaram nas árvores e nos nossos dedos, celebra-se, a 23, o Dia Mundial do Livro, prenúncio de outros voos e Primaveras…
Tem páginas este dia
como um livro inacabado
com um perfume de infância
num capítulo ilustrado.
Moram nele as histórias,
os poemas e as lendas
que fazem de cada livro
a melhor das nossas prendas
e que não deixam esquecer
esse tempo tão feliz
em que cada um de nós
era feiticeiro e aprendiz,
coleccionando heróis
com o prazer da aventura
que começa e se renova
na magia da leitura.
José Jorge Letria, O Livro dos Dias
Abril é metáfora de liberdade! Que fértil coincidência que Abril seja, também, o mês dos livros, essas asas de papel que nos fazem livres para sonhar. O mês abre as suas páginas festejando, primaveril, o Dia Internacional do Livro Infantil, no dia 2. Algumas folhas depois, que entretanto despontaram nas árvores e nos nossos dedos, celebra-se, a 23, o Dia Mundial do Livro, prenúncio de outros voos e Primaveras…
… que não deixam esquecer esse tempo tão feliz / em que cada um de nós / era feiticeiro e aprendiz. A minha filha mais nova tem uma brincadeira que me delicio a espreitar. Dispõe todos os seus bebés e zoo-bonecos na cama; senta-se numa cadeirinha à sua frente; poisa um livro no regaço; canta, com gestos rituais, o prelúdio “está na hora da história”; e depois, com o livro bem aberto, assente sobre o coração e voltado para os seus bebés, conta-lhes uma história a partir das ilustrações, que eles seguem, deleitados, a cada voltear de página. Aos 4 anos, muito antes de saber juntar as letras, já ela tinha aprendido um dos cuidados básicos e fundamentais da maternidade: o gesto de ler!
É um gesto que só precisa de 10 minutos, mas que faz TODA a diferença na vida de uma criança. De facto, pesquisas recentes mostram que o impacto da leitura nos bebés é de tal modo profundo que deve ser encarado como um cuidado tão fundamental quanto a alimentação, pelo que nunca é cedo demais para começar a ler. “Quando trazemos uma criança ao mundo, estamos a assumir a responsabilidade de a alimentar, de a manter limpa e segura. (…) Agora temos a prova científica de que há outro tópico a acrescentar a essa lista, que é ler-lhes desde pequenos”, refere a investigadora Anne Fernald. Afinal, a hora do conto é tão vital quanto a hora do banho!
Leituras embaladas pela voz dos pais são um tesouro escondido – e precioso – para os pequenos piratas. Estudos sobre os hábitos de leitura na infância concluem que a ausência de envolvimento parental pode reduzir em 74% as competências de leitura das crianças e jovens. E uma notícia vem alertar: “Investigadores identificaram ligação entre pobreza e baixos índices de leitura”. Lembram-se do discurso da pequena Malala? Os livros são a melhor arma para nos libertar da pobreza. Para ser livre, no fundo! (Curiosamente, em latim, a palavra liber tanto significa “livro” como “livre”.) Tinha razão, Flaubert: “Leia para viver!” E não é isto que faz a princesa Xerazade, que salva a sua vida (e resgata o coração do rei) contando histórias durante Mil e Uma Noites?
E nós, quantas noites e dias já ganhámos, lendo para filhos ou alunos? O pedagogo Daniel Pennac, num sério e bem-humorado ensaio sobre a motivação para a leitura, que se lê Como um romance (ASA), demonstra como ler uma história às crianças antes de adormecer é uma dádiva tão gratuita quanto determinante para o seu futuro sucesso escolar; e como a leitura regular em voz alta, oferecida por pais ou professores às crianças – e até mesmo aos adolescentes –, tem um efeito exponencial sobre o emergente prazer de ler. “O culto do livro resulta da tradição oral”, dessa inicial rotina diária de ouvir alguém ler para nós, que um dia se transforma em desejo de ler por si e mais tarde se converte em vontade de dar a ler aos outros. Ou vontade de escrever e ilustrar, como aqueles ternos Versos para os Pais Lerem aos Filhos em Noites de Luar (Ambar), obra da dupla Letria, pai e filho povoando o sono dos nossos meninos.
“O melhor que nós lemos, devemo-lo frequentemente a um ser que nos é querido (...) porque o que é intrínseco tanto ao sentimento como ao desejo de ler consiste em preferir. Amar é doarmos as nossas preferências àqueles que preferimos. E estas partilhas povoam a invisível cidadela da nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos." (Daniel Pennac)
Estas palavras fazem de cada livro / a melhor das nossas prendas. E, nos dias de hoje, é tão fácil descobrir bons livros para sonhar e para manter sempre ao alcance das crianças. Em Portugal, nos últimos anos, a literatura infantil deu passos de gigante: magníficos livros, excelentes escritores, premiadíssimos ilustradores; editoras criativas, projectos e recursos editoriais fantásticos, livrarias infantis encantadas, onde apetece habitar, namorar os livros e ser feliz para sempre… Porque, afinal, “num livro esconde-se todo o mundo”.
E há aí imensos mundos por descobrir nas nossas editoras infantis, em sítios como o planeta tangerina, a galáxia KALANDRAKA ou o universo OQO. Como Nils Holgersson, podemos fazer uma maravilhosa viagem nas asas do PATO LÓGICO, levando a tiracolo BAGS OF BOOKS, de ouvidos abertos às histórias que saltam da BOCA Júnior. Se fizermos TRINTA POR UMA LINHA, haverá decerto um BRUAÁ nos livros, com as letras em GATAFUNHO, e então buscaremos um ORFEU MINI para nos encantar com a sua lira e a sua arte.
Para festejar este dia, as pistas de leitura que aqui deixo são alguns livros sobre livros: Se eu fosse um livro (Pato Lógico) ou O incrível rapaz que comia livros (Orfeu Mini). Estes dois títulos estão disponíveis para escutar no blogue “Letra Pequena”. Mais há outros: Afonso e o livro (Livro do Dia) ou Ler doce ler (Terramar). Para os que já só sabem folhear no tablet, recomendo a versão em papel É um livro! (Presença). E, para desentorpecer os dedos, a imaginação e todos os sentidos, uma aventura literária muito interactiva: Este livro está a chamar‑te, não ouves? (Planeta Tangerina).
Um livro chama-me. Adeus… vou ler. Mas passo a palavra ao ilustrador João Vaz de Carvalho: "A felicidade é reler os livros de infância."
Joana Portela, mãe
A autora deste texto não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.