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"Um poema ou uma árvore podem ainda salvar o mundo"

2016-03-15

AS ÁRVORES E OS LIVROS

 

As árvores como os livros têm folhas

e margens lisas ou recortadas,

e capas (isto é copas) e capítulos

de flores e letras de oiro nas lombadas

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,

as mais fantásticas aventuras,

 que se podem ler nas suas páginas,

 no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

 

As florestas são imensas bibliotecas,

e até há florestas especializadas,

com faias, bétulas e um letreiro

a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

 

É evidente que não podes plantar

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.

Para começar a construir uma biblioteca,

basta um vaso de sardinheiras.

 

Jorge Sousa Braga, Herbário, Assírio e Alvim, 1999

 

 

Porque a matéria das árvores se sublima nos livros de poesia, faz todo o sentido a comemoração conjunta, a 21 de Março, do Dia Mundial da Árvore e do Dia Mundial da Poesia: o tronco converte-se em voo.

Felizmente que, cada vez mais, as escolas e até as famílias não deixam de assinalar este dia com actividades comemorativas, o que é óptimo, desde que sejam efectivamente fecundas na modelação de novas atitudes, e não apenas por motivo de “rotina de calendário”. Contudo, tenho a sensação de que, passada a efeméride, pouca continuidade e atenção se dá, durante o resto do ano, à importância das árvores e da poesia na educação e vida das crianças, e também à importância da própria educação das crianças para a sobrevivência da poesia e das árvores.

Faltam árvores às nossas crianças. Segundo o pedagogo Rubem Alves: “Toda a criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir.” Mas quantas das nossas crianças já fizeram uma cabana nos bosques, treparam a uma árvore, contaram os anéis de um cepo para lhe descobrir a idade, ou sabem distinguir uma bétula de um abeto? Quantas das actividades comemorativas do Dia da Árvore não se realizam totalmente dentro de portas?! Desenhos e pesquisas no Google não bastam para se conhecer o cheiro da resina…

Muito do conhecimento precisa de ser sensorial. E nem é preciso ir a uma quinta pedagógica para as crianças descobrirem o mundo de sensações novas que uma árvore proporciona a todos os sentidos do nosso corpo. Qual a criança que nunca descascou um plátano? “A natureza é o melhor laboratório de ponta que existe”, disse-me uma cientista. E apetece-me acrescentar: e a melhor sala de aula. Lembro-me bem de como aprendi em criança — para jamais esquecer — a distinguir algumas árvores: fazendo com a minha mãe um herbário de folhas.

Faltam folhas de poesia às nossas crianças. E faltam estantes de poesia às nossas livrarias. Porque, se o gosto pela poesia não for cultivado e regado desde a infância, os leitores, quando adultos, dificilmente terão desenvolvido a sensibilidade estética, literária, musical, simbólica, para apreciar e fruir a arte poética. Como as árvores, a poesia é fundamental ao Homem integral, porque nos humaniza e, simultaneamente, nos eleva. Mas a poesia não tem apenas um valor pedagógico e estético, tem também um valor instrumental: como podemos educar as crianças no domínio da criatividade, da imaginação, da inovação, do pensamento livre, sem passar pela forma mais bem conseguida de criatividade da linguagem e do pensamento, que é a expressão poética?

Sou assídua na leitura de poesia, muito graças à influência tão prazerosa que, na minha infância, exerceu a colectânea de poetas lusófonos Primeiro Livro de Poesia, organizada pela Sophia. Jamais esqueci poemas como “Irene no Céu” ou “Café com pão”, de Manuel Bandeira; ou Alexandre O’Neill e aquele verso final “Sai depressa, ó cão, deste poema”. Como mãe, tenho vindo a descobrir como a poesia tem o potencial extraordinário de levar as crianças a apropriarem-se da linguagem poética e simbólica para se (re)conhecerem, recriarem e verbalizarem emoções. Tive esta experiência com o meu filho (muito irrequieto e acelerado) quando ele tinha seis anos: ao deitar, lemos alguns poemas do livro Herbário. Ele ouviu-os com muita atenção, mas mal terminei o poema intitulado “Raízes”, ele levantou-se, apontou vagamente para a página e disse: “Eu não gosto nada disso!” Estranhei esta reacção de desagrado perante um poema, tão pouco habitual nele: “Não gostas do poema, ou não gostas do desenho?!” “Não é isso, mãe! Não gosto NADA de ter os pés presos ao chão!” Nunca antes ele se definira tão bem... Por meio do poema, espontaneamente, foi capaz de fazer a sua autopsicografia. A poesia é fonte de (auto)conhecimento.

"Um poema ou uma árvore podem ainda sal­var o mundo", lembra-nos Eugénio de Andrade. Por isso, deixo para este dia, mas como desafio a continuar, uma sugestão para pais/filhos, avós/netos/ professores/alunos: fruírem estes dois poemas, sob a copa de uma árvore ou trepando aos ramos, e aprenderem a identificar, pelos sentidos, cada uma das espécies referidas. E, quem sabe?, começar um herbário…

 

RAÍZES

Quem me dera ter raízes,

que me prendessem ao chão

Que não me deixassem dar

um passo que fosse em vão.

 

Que me deixassem crescer

silencioso e erecto,

como um pinheiro-de-riga,

uma faia ou um abeto.

 

Quem me dera ter raízes,

raízes em vez de pés.

Como o lódão, o aloendro,

o ácer e o aloés.

 

Sentir a copa vergar,

quando passasse um tufão.

E ficar bem agarrado,

pelas raízes, ao chão.

 

Jorge Sousa Braga, Herbário, Assírio e Alvim, 1999

 

                                                                                                                  Joana Portela, mãe

 

A autora deste texto não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.

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